aleksander henryk laks

A HISTÓRIA DE UM HERÓI
– ALEKSANDER HENRIK LAKS –

Quando eu nasci e fui apresentado ao mundo como ele é, meus heróis usavam capa e espada, tinham superpoderes e objetos capazes de derrotar todos os inimigos que ameaçavam a sociedade.

Tinha o Batman com o cinto de mil e uma utilidades que derrotava os arqui-inimigos: Charada, Coringa, Pinguin, Mulher-Gato e muitos outros; tinha também o Super-Homem com o peito de aço e a visão de raio X que derrotava o terrível Lex Luther e quem ele recrutava para derrota-lo; tinha o japonês National Kid com uma pistola de raio laser para derrotar os Incas Venuzianos, ou o Celacanto (monstro marinho), e muitos outros.

No entanto, todos eles, sem exceção, tinham um ponto fraco, e vez ou outra, caíam nas mãos dos inimigos. Claro que todos se salvavam, afinal de contas, nós, os espectadores mirins, precisávamos acreditar que o mal nunca triunfaria e que o mundo em que vivíamos estaria sempre seguro por causa deles.

Naquela época, nem passavam pela minha cabeça os fatos que haviam acontecido 22 anos antes com os judeus na Europa. O pouco que eu ficava sabendo era narrado pelo meu avô, um homem tão íntegro, honesto, e sionista, que quase todos os dias se ocupava em me passar os seus valores morais e éticos contidos na Torá, explicando-me o significado de ser judeu, assumindo suas responsabilidades e cuidando para não servir de tropeço para outras pessoas e nem ser um escândalo para ninguém.

Tudo o que sou e o que sei devo a ele, tudo o que li a respeito do judaísmo vinha de sua enorme biblioteca repleta de livros sobre o Holocausto, sobre os nazistas, sobre os guetos, sobre a miserável vida dos judeus quando Hitler ascendeu ao poder, sobre as conversões forçadas, sobre o antissemitismo e sobre saber me defender e nunca abaixar a cabeça, permitindo que me humilhassem.

KITO HOLOCAUSTO

Só muito mais tarde é que começaram a surgir às séries “Combate” e os filmes de guerra, onde americanos e alemães se enfrentavam, no entanto, sem mostrarem os horrores dos campos de extermínio nazistas. Posso dizer com segurança que cresci acreditando que tinha a missão de defender meus amigos judeus que sofriam perseguições nos colégios em que estudava.

Por várias vezes fui parar nas diretorias para explicar-me sobre os motivos das minhas brigas. Não sei se tinha o poder de persuasão, embora sempre tenha conseguido convencer os/as diretores/as que se sensibilizavam com as histórias que eu narrava (tudo aprendido com o meu avô e com os filmes e livros que lia). Nunca fui expulso, sequer fui suspenso por isso, e ganhei a simpatia de todos os meus amigos judeus e dos não judeus também que se sentiam oprimidos pelos garotos metidos a valentões. Nessa época eu já era graduado em judô e também fazia jiu-jitsu, uma luta que até então, era desconhecida da maioria dos garotos da minha idade.

O tempo passou, e com ele, me tornei um estudioso sobre o Holocausto. Naquela época, meu herói era Mordechai Anielewicz, o homem que liderara a resistência judaica contra os alemães, no gueto de Varsóvia. Mas ele não era palpável, fazia parte da história do (meu) povo judeu, assim como Shimon Bar Kochbá, Yehuda Macabeu e tantos outros que decidiram enfrentar seus inimigos (meus inimigos).

Foi então, que numa de minhas buscas encontrei o nome de Aleksander Henrik Laks. Um sobrevivente do Holocausto. Ele já fazia suas palestras, e por sorte, ou talvez guiado pelas “mão” de Hashem (D’us), em uma delas eu estava presente. Foi no colégio que meus filhos estudavam, em Botafogo.

Do primeiro momento que o ouvi narrar sua vida, a minha vida se transformou para melhor. Não perdi o espírito aguerrido que sempre tive, mas aprendi a ser mais inteligente com Laks. Ninguém suportaria o que ele suportou se não tivesse o AMOR dentro de si mesmo. Laks me ensinou a enxergar a tragédia sobre outro prisma. Ensinou-me a compreender melhor a inércia dos que se deixaram matar sem esboçar qualquer reação; ensinou-me a compreender os que perderam a fé, os que se revoltaram, os que se fecharam para o mundo e ficaram presos ao passado.

Childwarsawghetto

Na minha cabeça, os nazistas apesar de terem perdido a guerra eram os vencedores sobre o nosso povo. Milhões de famílias foram destruídas, filhos perderam seus pais, tios e avós. Uma geração de órfãos sobrou sem sequer saber como eram seus familiares, outros foram adotados por cristãos e perderam sua identidade judaica, não havia o colo de nenhuma yidishe mame, nenhum abraço seguro de um pai, nenhum carinho de um avô e uma avó, nenhum irmão para brincar, mas, em compensação, sobravam muitos garotos não judeus para debochar, espezinhar, ferir com palavras duras meninos e meninas apenas porque eram judeus. Sobravam também muitos adultos que, decepcionados com a derrota dos alemães, atribuíam aos judeus todas as suas mazelas e as do mundo. Eu testemunhei isso muitas vezes, e me revoltei em todas elas.

Poucos sobreviveram, e com o passar do tempo, 71 anos para ser mais específico, são muito poucos os que ainda estão vivos. Todavia, destes, mais de 90% preferem calar-se, não falam do passado, não relembram suas perdas, suas dores e a saudade dos que partiram.

KITO E LAKS 2

Muitos não suportaram e deram fim a própria vida, pois o vazio que lhes restou, unido com a insistência do mundo em fomentar novas frentes antissemitas, grupos neo-nazistas, revisores e negadores do Holocausto, boicotes à produtos israelenses ou a existência legal de Israel, pregando o aniquilamento do povo judeu foi pesado demais para eles.

Entretanto, com o Laks foi diferente. Obstinado em tornar pública a sua vida e tudo o que passou, ele renovava as esperanças dos que viveram esta história, direta ou indiretamente, e proporcionava aos mais jovens, conhecimento suficiente para que não se tornassem meros espectadores da história, não deixassem que tudo terminasse ao fecharem um livro de história, se sensibilizassem ao assistirem suas palestras, passando a enxergar o que vergonhosamente a história permitiu, sem que banalizassem os fatos.

palestra laks

Laks (para mim ele foi o substituto natural do “Velho Giba”, meu avô querido), não usava capa e espada, não tinha um cinto com mil e uma utilidades, seu peito não era de aço, ele não possuía visão de raio X, e nem tinha armas que disparavam raios laser. Laks era humano, sensível, desprendido, desapegado, amoroso e carente. Sua alegria era transmitir seu passado, cercar-se de jovens que passavam a amá-lo quando o conheciam, vencer as barreiras do tempo enquanto seus algozes morriam um por um.

KITO E LAKS 4

Laks venceu os alemães, os malditos nazistas, a indiferença, a fome, a dor, os obstáculos que se interpunham em seu caminho, para mostrar que o ser humano valia a pena, que doar-se sem querer nada em troca era a maior e melhor moeda de barganha contra um mundo cada vez mais violento. Sem o seu testemunho, provavelmente, muitos jovens não judeus desconhecerão essa triste história e, quem sabe, acreditarão nas falsas ideologias, talvez por ignorância, por imaturidade, ou mesmo por achar que isso é uma “onda” e que vale a pena mergulhar de cabeça e se esborrachar na piscina vazia.

Não sei se meu avô o conheceu ou se ele conheceu o meu avô, talvez sim, talvez não, mas isso não importa, uma vez que ambos me ensinaram o que é ser um verdadeiro MENTSCH (“homem” ou “ser humano.”), a ser um homem melhor, a estender a mão sem me preocupar com posição social, a defender a verdade e a iluminar o caminho dos que buscam atalhos escuros e perigosos.

KITO E LAKS 3

Obrigado por tudo o que fez, vô Laks. Obrigado por inspirar-me a escrever o livro “Quebra de Contrato” e a descobrir novas maneiras de levar suas experiências de vida para o grande público (teatro e cinema).

Você foi o meu herói vivo e humano e garanto que foi e ainda é o herói de muita gente, de muitos jovens e muitos adultos.

KITO E LAKS

Esta é a minha homenagem, hoje e sempre, ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e em memória de Aleksander Henrick Laks, o meu vovozão, o meu herói.

Shalom!

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