24110289
Termino de escrever algumas laudas para os meus clientes exigentes, e que querem tudo para ontem, o que é bem compreensível, pois as pessoas e o mundo não se cansam de produzir fatos, e deito na rede que fica ali ao lado, numa saleta com a parede imitando pedaços de rocha, me fazendo lembrar o Kotel (Muro das Lamentações). Então fecho os olhos e relaxo o corpo.

Não demora muito e eu sonho com um homem livre, dono de uma embarcação luxuosa, o que denota poder e riqueza, no meio de uma tormenta em alto-mar. Ele não quer pular, é muito apegado às coisas que estão a bordo. Até que não há mais nada a fazer, a embarcação vira e afunda, mas ele se joga ao mar e consegue se salvar. À sua frente encontram-se duas ilhas, uma delas é cercada por um arrecife que impede que as ondas se aproximem, mas o espetáculo que proporciona o amedronta; a outra é mais convidativa e ele avista uma faixa de areia, escolhendo-a para se salvar. Ele nada até ela, e ao chegar, exausto, dorme assim que alcança a faixa de areia. Ao acordar fica desolado, pois acredita que a ilha é deserta. Ele a explora, mas nada encontra, e pensa que morrerá de fome, de sede, pobre e abandonado. Até que, passados alguns dias, é descoberto pelos habitantes da ilha que o tratam como um verdadeiro rei, devolvendo-lhe o conforto, a dignidade, e o nomeando governante. 

Confuso, ele os questiona:
_ Vocês não sabem quem eu sou, me encontraram maltrapilho, com os cabelos desalinhados, a barba por fazer, esfomeado como um animal selvagem. Como podem tratar desta forma um desconhecido, e ainda fazê-lo governante da ilha?
_ Senhor, somos prisioneiros nesta ilha, mas rezamos todos os dias para que alguém apareça e nos governe para sermos livres.
_ E porque vocês mesmos não elegem um rei entre vocês?
_ Porque todos nós pensamos da mesma maneira, então decidimos rezar para que um náufrago apareça e transforme este lugar.
_ Já apareceram outros antes de mim?
_ Sim, mas depois de um ano reinando só para eles, nós os destituímos e os mandamos de volta para o mar.
A ilha toda é só destruição, restam poucos recursos, e eles explicam que cada vez que um novo rei é eleito, o sujeito decide governar com tanto egoísmo, que os recursos estão se acabando.
Assustado com a possibilidade de ser rejeitado no final de um ano, o náufrago, agora rei, envia a população para retirar da outra ilha, sem esgota-la, todos os recursos que precisarão, e ordena com diligência e energicamente que durante todo o seu reinado trabalhem, incessantemente, construindo casas com saneamento, preparando a terra, transformando terrenos áridos em solos férteis, erguendo pontes, criando vias de acesso e comunicação, enquanto ele mesmo se encarrega de educa-los para que saibam ser livres e independentes. No final de um ano, já esperando o momento de se despedir, eis que a população o convida para ficar. Não mais como rei, mas como morador.
Assim, a cada novo ano, um deles é escolhido para reinar para todos, mas estará submetido à avaliação de todos. Quem reinar mal, será mandado embora da ilha, nu e numa frágil embarcação, sem direito à volta.
Acordei olhando para a parede que imita o Kotel, e lembrei-me do pensamento do filósofo romeno, E. M. Cioram, que meu avô gostava de citar:
“não são os males violentos que nos marcam, mas os males surdos, insistentes, toleráveis – aqueles que fazem parte da nossa rotina e nos minam, meticulosamente, como o tempo.”

 

 

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