1484225_10200446324399699_936205973_n

O sol já havia se posto. Três estrelas no céu e o canto dos pássaros se aninhando nas copas das árvores anunciavam a chegada do shabat, o dia de descanso judaico, ou entardecer da sexta-feira para a maioria das pessoas.

Eu pedalava de volta pela estrada que liga a Prainha até a praia da Macumba. A ida já havia sido muito sacrificante para a minha idade, e sem um equipamento adequado (minha bike é pesada, não é de liga leve, ou de fibra de carbono) fica tudo mais difícil. Pedalo 15 quilômetros uma vez por semana, e faço esse percurso alternativo para a Prainha sempre que posso. Tanto a ida quanto a volta foram um grande desafio com subidas exaustivas que me levaram ao limite das forças, mas com a recompensa de duas descidas alucinantes, tendo como visual, o gigantesco mar ao fundo decorado com as imensas pedras que dividem a Prainha, da Macumba e do Recreio.

Parei na primeira descida, no mirante do Roncador, e fiquei ali um pouco, apreciando o mar bater nas rochas. Olhei para os lados para controlar a segurança, mas não havia ninguém. Um carro ou outro passavam por ali em alta velocidade, jogando fora a oportunidade de contemplar a paisagem rodando em baixa velocidade. Estão com pressa de quê se não vão pra lugar nenhum? E se forem, que desperdício não ter se dado um tempo para refletir e curtir um visual que muita gente vem de longe e paga pra ver.

Respirei fundo e deixei o forte cheiro de maresia entrar pelos meus pulmões. Então pensei em todos os votos de shabat shalom que recebi hoje e lembrei que faz muito tempo que não guardo esse dia como reza a tradição, ou que não como mais chalot (pães trançados doces ou salgados), e que tudo perdeu o sentido num caminho sem volta, levando-me ao encontro do meu maior desafio há alguns anos: viver sozinho. Isso depois de ter vivido com meus avós e em família; depois de ter construído a minha própria família; depois de ter feito de tudo para não deixar ninguém se sentir sozinho; depois de ver tudo se desmoronar sem que haja uma explicação coerente, racional, algo que faça sentido.

Deitei sobre a mureta, sem correr riscos, e pensei no desafio que a vida está me impondo. O sol estava se pondo num alaranjado vivo sombreando parte do mar que ia e vinha rebentando nas rochas salpicando gotículas salgadas que embaçavam meus óculos, mas refrescavam minha pele.

Pensei em como a maioria das pessoas evita desafios, principalmente um desafio como esse. Preferem aceitar uma situação de desconforto, de infelicidade, de troca de interesses, apenas porque não querem correr o risco de fracassar, e vamos combinar, quem é que gosta de fracassar?

Mas Kito Mello, meu querido, se não houvesse esse risco iminente de fracasso, onde estaria o desafio da vida? O que você aprenderia dela ou com ela se tudo fosse linear? Enfrentar, portanto, esse desafio é o que pode te elevar acima do desânimo da sua própria existência cotidiana.

_ A rotina! Gritei.

_ É isso! Meu desafio deve ser vencer a rotina massacrante que vem tentando se impor querendo me jogar para baixo.

Os meus dias podem ser todos iguais, mas depende de mim enxerga-los assim ou torna-los diferentes. Não, eu não vou me sabotar. Cada dia deverá ser um dia diferente, mas também, e principalmente, um dia agradável.

Cada um encontra uma maneira de enfrentar seu exílio, seu deserto. Uns procuram terapeutas, psiquiatras, analistas, tomam remédios. Alguns conseguem se distrair, outros sucumbem. Eu escrevo, e isso é algo que me ajuda muito, porque me faz pensar com a cabeça de quem me contrata para escrever uma biografia, ou me faz pesquisar sobre vários assuntos, tomando conhecimento de novas realidades, histórias lindas de vida, outras nem tanto, de fatos e versões sobre tudo de bom e ruim. E isso tudo me faz criar personagens com todas as possibilidades e temperamentos e que me apaixonam. Aliás, melhor ainda, se tornam meus amigos e amigas e me fazem compreender minhas próprias situações de vida e me fazem companhia.

Em muitas situações, sinto minhas próprias limitações em enfrentar esses desafios, mas sempre os venço e os vencerei. Contudo, existem outros em que me sinto intimidado, e com uma vontade enorme de desistir. É aí que uso minha expertise e deixo que um ou alguns deles assumam o comando e passem a me dar ordens.

Assim, em determinadas situações, já tive a coragem de Márcio, a malandragem de Saulo, a dúvida de Jacob, a impetuosidade de Adria, o radicalismo de Elias, a ingenuidade de Joca, a arrogância Ringo, mas também já fui confortado pelo carinho de Mirta, pela docilidade de Clarisse, pelo amor de Sarah, ou a decepção de Alberto, a iniciativa de Lea, o estranho amor de Heloneida, a decisão de Bia, e tantos outros que me fizeram agir, pensar ou falar como eles, embora sempre soubesse que jamais poderia ser qualquer um deles, pois estão todos submetidos ao meu controle. Eu sou o DEUS deles, eu lhes dei a vida, embora não possa mais tirá-las. E não fosse assim, não estaria aqui deitado nesta mureta contemplando o mar, mas em algum hospital psiquiátrico tomando fortes medicamentos que me trouxessem à realidade.

Então o tempo passou, e sem que eu percebesse, um andarilho se aproximou. Quando me dei conta ele estava tão perto que já não dava mais para montar na bike e fugir. Contudo, ele não me pareceu potencialmente ameaçador. Então sentou-se ao meu lado, e a primeira coisa que pensei é que ele podia ter escolhido todos os lugares do mundo, menos ali, mas já que escolheu ficar ao meu lado, paguei pra ver no que ia dar.

_ Você está pensando em se matar? Ele perguntou.

_ Claro que não. Respondi secamente.

_ Bom, então você pode me ajudar a comer alguma coisa?

_ Posso, mas eu não tenho dinheiro pra te dar, e aqui também não tem qualquer lugar pra você comer alguma coisa.

_ Mas tem ali embaixo. Disse apontando a orla da praia da Macumba.

Eu sorri.

_ Você tá com muita fome, ou dá pra gente conversar primeiro? Perguntei.

Ele riu.

_ Quem vai ajudar quem? Ele perguntou.

Rimos os dois.

_ Como é teu nome? Ele perguntou.

_ Kito e o seu?

_ Elias, mas Kito não é nome. Ele disse.

Eu ri.

_ Há sempre duas dimensões no nome de uma pessoa. Uma pode representar o aspecto externo do ser, pelo fato do nome ser necessário apenas quando uma pessoa se relaciona com outras, mas para si mesmo, o nome não é importante, e esse parece ser o seu caso.

Surpreendi-me com o seu argumento.

_ Não é isso, é que várias pessoas com personalidades totalmente diferentes podem ter o mesmo nome, demonstrando que, ao menos superficialmente, o nome não descreve quem é a pessoa.

Ele me olhou fixamente.

_ Marcos é o seu nome, não é?

Não me surpreendi, considerando que pela sua inteligência já demonstrada chegou à conclusão que Kito vinha de Markito, e daí, de Marcos.

_ O nome representa o caráter e a força da vida de uma pessoa. É um canal por onde a natureza íntima se expressa. Isto não é apenas um conceito teórico; influencia o comportamento direto da pessoa. Sempre que uma pessoa é chamada pelo nome, volta-se com atenção para quem a invocou.

Percebi que ele olhava fixamente para a Estrela de David e a letra Chai (vida) que carrego no meu cordão de ouro, assim como para o anel que carrego no dedo indicador direito com várias Estrelas de David. O preconceito me fez pensar que ele iria tentar me assaltar.

_ Sabe Marcos, você não está exilado, só está subjugado pelos poderes do mundo. Você, assim como o seu povo não têm potencial para ser exilado.

Tentei desconversar. Esse papo de Deus me enche o saco.

_ Vamos descer pra eu te pagar alguma coisa?

Levantei e peguei a bike. Ele se levantou e me acompanhou.

_ Vocês lutaram com Deus e venceram.

_ Eu não acredito em Deus e não lutei com ninguém. Eu disse.

_ Esse exílio que você pensa estar vivendo não representa uma mudança na essência da sua relação com Deus. Você pode rejeitá-lo e até trocá-lo por outro, mas Ele nunca te trocará nem nunca te abandonará.

_ Sabe, eu poderia agora te dar várias explicações sobre esse seu Deus, mas isso só faria você acreditar que eu acredito nele. Então, vamos fazer um acordo: Você não me fala dele e eu não tento tirá-lo da sua cabeça.

527341_486660701353755_748262486_n

Descemos calados até o quiosque da Teresa, uma japonesa guerreira, que foi sabotada por outros quiosqueiros, apenas porque fez do seu comércio o melhor comércio da orla.

Comemos vários pastéis de camarão com pimenta. Ele saboreou cada um com sofreguidão. Estava com muita fome.

Decidi provoca-lo.

_ Você fala em Deus, mas está comendo camarão, e camarão não é um alimento puro.

_ Você foi o escolhido, não eu. Ele respondeu.

Eu ri.

_ Você só está dormindo Marcos, mas seu coração está acordado. Ele disse.

Paguei a conta e nos despedimos, mas antes que ele se afastasse, perguntei:

_Pra onde você vai agora?

_ Pelo mundo.

_ Quer tomar um banho e colocar uma roupa nova?

Ele riu.

_ Vou aceitar.

De barba feita, cheiroso, com calça, camisa e sapatos novos parecia um dos proprietários de alguma das casas do condomínio.

Dei-lhe um exemplar do meu livro Índole, autografado, e também algum dinheiro.

_ Obrigado. Disse-me com os olhos firmes.

Apertamos a mão e eu lhe disse, mesmo sem acreditar:

_ Vai com Deus!

Ele sorriu e respondeu.

_ “Atá iadati ki ierê Elokim ata”.

Tradução: Agora solidificou-se que você é temente a Deus.

Elias foi embora e eu vim aqui escrever isso pra vocês.

https://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/02/1484225_10200446324399699_936205973_n.jpghttps://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/02/1484225_10200446324399699_936205973_n-150x150.jpgKito MelloCRÔNICASO QUE TEMOS PRA HOJE?O sol já havia se posto. Três estrelas no céu e o canto dos pássaros se aninhando nas copas das árvores anunciavam a chegada do shabat, o dia de descanso judaico, ou entardecer da sexta-feira para a maioria das pessoas. Eu pedalava de volta pela estrada que liga a Prainha...Comunidade Judaica Paulistana