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“Não prometa nada se estiver muito feliz ou com muita raiva. Não decida nada se estiver muito alegre ou muito triste. Evite criar expectativas inúteis; poupe-se de maiores aborrecimentos”.
Kito Mello

Lika é uma mulher de meia idade, mas ainda muito linda, e com um corpo exuberante. Pernas torneadas, bundinha bem feita e durinha, à custa de muita malhação é claro, seios na medida certa, como duas laranjas médias e bem redondinhas, cabelos levemente cacheados, e um rosto com contornos suaves que ganha vida com seus dois olhinhos de sagui.
Sua tez é morena, mas clara porque Lika não gosta de praia. Poucas vezes a vi bronzeada; somente quando viajávamos para o litoral. Era quando colocava um dos seus inumeráveis biquínis e me fazia sentir orgulho por caminhar ao lado de um monumento vivo. Lika era perfeita plasticamente. Não tinha homem que não a olhasse, e não a desejasse.
Formada em Fisioterapia, abandonou a profissão logo depois que se casou com um cara muito mais velho. Estimulada pelo marido voltou a estudar, formando-se em Direito, conquistando assim, uma colocação num cartório no centro do Rio, onde se enfurnou escondendo a beleza e a angústia que a acossa, assim como as princesas das histórias medievais que eram aprisionadas no alto das torres dos castelos.
Reencontramo-nos por acaso, quando meu advogado pediu-me que o acompanhasse até o cartório. Por ironia do destino, vejam vocês, era o dia do aniversário de Lika. Eu já o havia esquecido, mas ao vê-la com seus colegas festejando, e sendo o centro das atenções, lembrei-me imediatamente da data. Como um penetra ocasional, estava no meio da sua festa sem ter sido convidado.
Beijinhos efusivos pra cá, abraços fraternos pra lá, uma farta distribuição de pedaços de torta e copinhos plásticos com refrigerante entre os funcionários. Enfim, o cartório virara uma casa de festas. Meu advogado lançou-me um olhar calhorda, sorrindo como se fosse um dos convidados, mas só eu sabia que tudo aquilo mudaria no instante em que Lika me alcançasse com os olhos. E assim aconteceu.
Eu estava encostado no balcão de atendimento, quando nossos olhos se encontraram. Lika deixou o prato cair no chão, derrubou um copo sobre a mesa, e chamou a atenção de todos. Fez-se um silêncio sepulcral. Ela estava congelada. Eu hipnotizado. Alguma coisa, no entanto, precisava ser feita para devolver os segundos ao tempo que parara repentinamente.
Tomei a iniciativa e pisquei o olho sorrindo, mostrando prazer ao revê-la. Contudo, ela estava tão assustada quanto um pássaro dentro de uma gaiola com um gato a lhe espreitar. Estava claro que ambos nos surpreendemos com o que a vida nos havia preparado naquele momento.
Uma funcionária se aproximou e perguntou o que nós desejávamos. Antecipei-me ao meu advogado e disse, apontando para Lika:

_ Quero falar com a aniversariante.

A mocinha foi até ela e deu o recado. Lika me olhou com suas sobrancelhas arqueadas, e um olhar ainda mais perdido. “Como ele ainda quer falar comigo”. Deve ter pensado. Balancei a cabeça consentindo que se aproximasse sem medo. Então ela foi chegando, mas com muita cautela, como faz uma leoa ao se aproximar de sua caça.“Um dia eu já fui a sua caça, mas hoje o caçador serei eu”. Pensei.
Meu advogado me olhou, assim, meio feliz, como os homens olham-se quando uma mulher bonita se aproxima. Ainda mais quando há um contexto. E ele percebeu que ali havia muito contexto. É a tal solidariedade masculina. Somos todos torcedores dos nossos amigos nessas horas. É como se pudéssemos compartilhar o mesmo objeto de desejo, embora sejamos bastante egoístas. Bem, eu sou. E senti que ele, e todos os funcionários do cartório estavam interessados no que estava para acontecer. Mas eu os frustrei. Posso até dividir um pedaço de pão, mas não divido uma mulher em hipótese alguma.

_ Ari, por favor, poderia tratar o seu assunto com outra funcionária?

Meu advogado se afastou, enquanto Lika encostou-se no balcão; ainda estava pálida.

_ Relaxa! Estou tão surpreso quanto você. Disse-lhe.

_ No que eu posso te ajudar. Disse-me em tom formal.

_ Me oferece um pedaço da sua torta de aniversário? Perguntei sorrindo para quebrar o gelo.

Ela piscou os olhos lentamente e depois suspirou.

_ Como você sabe que é o meu aniversário?

_ Ainda lembro a data.

Ela sorriu.

_ Só isso que você quer? Provocou-me.

_ Não. Trás dois copos também; vamos celebrar a data com um Le Chaim!
Ela balançou a cabeça positivamente, afastando-se e desfilando toda garbosa para mim. A descontração e naturalidade tinham voltado, eu ainda a conhecia bem. E, enquanto admirei aquele exibicionismo gratuito, voltei no tempo.

FLASHBACK

Era a sua festa de formatura, e eu só estava lá porque uma amiga me convidara. Ao ser chamada, caminhou garbosa até o palco para receber seu diploma, sob os intensos aplausos e assobios. Minha amiga me disse que ela só se formara porque estava difícil realizar o sonho de ser bailarina profissional. Lika tinha o corpo daquelas meninas que aparecem no fim de semana no “Domingão do Faustão”. Deu pra entender porque me apaixonei?

Fomos apresentados e soubemos de antemão que não ficaríamos apenas nos dois beijinhos formais. Quando a festa rolou no salão nobre do Fluminense Futebol Clube, nós dois demos um “perdido” nos nossos acompanhantes, e passamos belas horas no campo de bocha que ficava no alto de uma rocha em frente a piscina olímpica. Eu conhecia bem o clube, além de ser sócio.
Lika me incentivou muito na pratica do jiu-jitsu, acompanhando-me nos treinos e nas competições. Achei justo dar para ela todas as minhas conquistas nos tatames: medalhas, troféus e diplomas. Nós sempre celebrávamos essas conquistas em alguma suíte brincando de luta, onde eu virava e revirava seu corpo, jogando-o para cima, ou para os lados com muito carinho, o que nos deixava excitadíssimos.
Também viajávamos e acampávamos por todos os lugares do Brasil. Lika curtia as minhas propostas aventureiras. Acho que esse seu espírito foi herdado do pai, que também gostava de acampar. Tudo era meticulosamente preparado e organizado por ela mesma, que arregaçava as mangas, e não me deixava nem mesmo cozinhar, ou limpar o que comíamos e sujávamos. Acabei ficando mal acostumado. Contudo, aprendi a me corrigir quando nos perdemos.
Naturalmente que a satisfação sexual era muito importante para nós dois, mas Lika, assim como eu, também exigia do parceiro uma mente tão interessante quanto o corpo. Ponto pra mim, que sempre cultivei a busca pelo conhecimento com a mesma intensidade com que cuidava da minha saúde. Ponto pra ela, que conseguia ser mais do que um corpo e um rosto bonito.
Lika adorava me ouvir filosofar, ou defender algum ponto de vista sobre um determinado assunto. Embora nem sempre pensássemos da mesma maneira, isso também não nos colocava em confronto. Compreendíamos muito bem que tínhamos nossas divergências pontuais, e que só estávamos exercendo o livre direito de escolhermos este ou aquele caminho. Isso dava uma dinâmica à relação.
Sim, tinha horas que o “pau comia”. Mas acredito que é justamente isso que faz uma relação caminhar pra frente. Sem conflito, definitivamente não há motivação.

“Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!” Pensava enquanto brigávamos.

FIM DO FLASHBACK

Lika retornava com dois pratinhos e dois copos. Ela estava mais radiante e, consequentemente, mais bonita.

_ Desculpe, mas aqui não tem nenhuma garrafa do scotch que você gosta.

Eu sorri. Ela ainda se lembrava das minhas preferências.

_ Keep calm, nem combinaria.

Ela sorriu, e eu em seguida a surpreendi.

_ Mas sei onde tem uma garrafa do melhor champanhe pra celebrarmos este reencontro.
Seus olhinhos de sagui brilharam enquanto brindávamos sob os olhares atentos dos seus colegas, e que, a esta altura, já imaginavam aonde aquilo tudo iria acabar.

_ Le Chaim!! Ela disse efusiva.

_ Iom Huledet Sameach! Respondi.

_ Acho que você é o único cara que diz isso fora de Israel.

_ Eu não gosto de ser igual a ninguém.

Ela sorriu. Então me aproximei do seu ouvido.

_ Posso te oferecer um passeio de lancha como presente de aniversário? Perguntei baixinho.

_ Você tem uma lancha? Perguntou-me surpresa.

_ Nada demais, 23 pés, apenas pra curtir de vez em quando. Topa?

_ Hãhan!

Notei que o meu advogado olhou-me com o canto dos olhos.

_ Ari, me desculpe, mas preciso sair.

Ele ansiava por participar da trama que proporcionou casualmente, ao convidar-me para acompanha-lo.

_ Não se preocupe depois eu te ligo. Disse-me com a satisfação de quem sobe ao pódio para posar para uma foto, ao lado do campeão.

Levei-a até a Marina da Glória, e de lá singramos até a Urca, onde desliguei o motor já próximo ao Pão de Açúcar. Lika ficou calada durante todo esse tempo. Mas, talvez, a emoção do reencontro, ou quem sabe o convite para o passeio de lancha, tenham feito com que sentisse uma necessidade de comentar sobre o passado.

_ Não fui feliz com a escolha que fiz. Revelou-me.

Lika, à época, trocou-me por um cara bem mais velho e com muito mais grana. Aquilo foi uma porrada muito forte que custei a assimilar. Perder a mulher que se ama para outro cara, obriga-nos a fazer um exercício hercúleo para manter a autoestima, mas quando a poeira assenta no fundo da alma, busca-se o bom senso. Alguns homens acabam compreendendo que só perderam a mulher, porque não foram suficientemente competentes para continuar alimentando o amor que elas tinham por eles. Não foi o meu caso. Perdi a mulher que amava para alguém que só estava lhe oferecendo mais conforto. A compreensão chegou, é claro, e não poderia ser diferente para alguém tão racional quanto eu, mas demorou muito.
Primeiro, achei que o erro foi meu, e quando descobri não era, perdi completamente a fé no amor, e passei a nivelar todas as mulheres pelo caráter da bandida que me deu um pé na bunda, trocando o meu amor por uma conta bancária mais gorda. No entanto, a razão falou novamente, e percebi que o passado havia passado; que cada um escolhe seguir o caminho que quiser, e que, quem não sabe o que procura não reconhece quando encontra. Se Lika não soube me dar o devido valor, eu precisava me dar. “A fila andou”. Pensei. Só me restava tocar a vida de cabeça erguida.  Foi então que eu conheci a Drica, e minha autoestima disparou “para o alto e avante”, como diria o personagem Buzz Lightyear.
Coincidentemente, seu novo ou velho marido desenvolveu o mesmo problema renal que faleceu sua mãe. À época, ao descobrir que o pai tinha uma amante, criticou-o muito.
_ Justificar que era só um refugo para se distrair, porque não suportava os problemas gerados pela doença da minha mãe? Ah, qual é? Disse-me, ainda indignada.

Eu não o julgo. Ainda mais sabendo que a mãe tinha um temperamento irascível. Agora ela está na mesma condição e não quer ser julgada pelos filhos que gostam do pai. Isso, segundo afirma, impede que saia de casa, embora deseje muito.

_ Não saio porque vou me sentir culpada.

Ela tem um amante, contudo, está frustrada porque tem a certeza que só é desejada na cama, e pelas poucas horas que se encontram às escondidas.

Por que Lika, uma mulher linda e inteligente jogou fora a chance de ser feliz ao lado de um cara da sua idade, e que a amava? Porque escolheu ficar com um cara bem mais velho? Eu não sei. Foi loucura? Um erro de avaliação? Uma ambição desmedida? Eu nunca vou saber. Muito menos quero tentar compreender porque uma pessoa aceita fazer isso e desperdiça a própria vida, enganando os outros, e principalmente a si própria, vivendo uma vida de aparências, infeliz, e não conseguindo nem mesmo encarar-se diante de um espelho para conversar honestamente consigo mesma.

Lika está presa a uma armadilha que ela própria criou. Muitos homens e mulheres acabam fazendo o mesmo, e vivem infelizes. Pude perceber sua angústia na intensidade dos abraços que me deu, marcando minhas costas, e pelos beijos lânguidos que trocamos, como se eu fosse um cilindro de oxigênio.

Não posso responsabiliza-la por nada. Ela vacilou muito ao me trocar, é verdade, mas a vida é assim mesmo; é feita de escolhas. Ela fez as dela e eu faço as minhas. Penso, contudo, que uma relação não pode envolver apenas a questão material, ou só o sexo. Tudo isso é efêmero demais, e de uma hora para outra podemos perder tudo o que conquistamos, ou mesmo o vigor físico. O que sobra então? Uma vida de mentiras para iludir-nos e aos nossos parceiros?

Não, uma parceira ou parceiro não merecem ser enganados. E não merecem, justamente porque são PARCEIROS. Portanto, estão ao nosso lado mesmo quando a grana é escassa, ou a libido vai embora.

Lika e eu nos perdemos. Sim, eu adorei reencontra-la, e relembrar nossos melhores momentos, mas ela não é a mulher que eu procuro, é só o passado que bateu à minha porta. Eu não o convidei para entrar novamente em minha vida, apenas curti sua visita. Anseio agora pelo futuro.

_ Tá ficando tarde. Eu disse.

Ela suspirou.

_ Tira uma foto nossa com a Praia da Urca ao fundo, e escreve uma dedicatória pra mim?

_ Claro. Respondi.

Ainda que eu nunca tenha sabido te querer da forma como você gostaria, sempre te quis com todo meu coração, e da melhor forma que eu sabia”.

 

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Ela chorou e me beijou. Correspondi ao beijo, mas mostrei que isso não significava um recomeço. Ela compreendeu. Brindamos à amizade com o que havia sobrado na garrafa do legítimo Cristal Louis Roederer, depois voltamos para a Marina, e eu a deixei no cartório.

Adeus Lika!

Quero abrir a porta do meu coração para uma mulher que me faça sonhar sem que eu me sinta ameaçado; uma mulher que não me cobre pelos minutos que me atraso, mas curta cada momento ao meu lado, esquecendo as horas; uma que divida o mesmo espaço que eu sem invadir minha praia.

Preciso sentir que sou livre, justamente para me prender a alguém que compreenda essa minha necessidade atávica. Juro que ao encontrar quem procuro, assumo o compromisso de ser um verdadeiro parceiro, aliás, como eu sempre sou.

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