Parashat Pinchas começa relembrando a tentativa do midianitas em sabotar a conexão espiritual de Israel como Hashem através do envio de mulheres para destruir as famílias e assimilar o povo. Relembra o heroísmo de Pinchas que vingou a ira de Hashem sobre Zimri príncipe de Israel da tribo de Shimon, evitando, assim, que todo o povo pecasse e sofresse a consequência de mais uma punição. Devido a este ato Pinchas recebe a Kehuná eterna para toda a sua posteridade.

 

Desde a estadia dos Israelitas no Egito até os dias atuais vemos a difícil relação deles com as demais nações. É natural que dessas relações hostis se produzam preconceitos, rivalidades e até mesmo ódio por ambos os lados. As constantes guerras contra os filisteus e cananeus demonstram a fragilidade nas cooperações. Quando um grande número dos israelitas passam a praticar idolatria se distanciando de Hashem se aproximavam dos povos cananeus e se assimilavam com eles. Quando regressavam em teshuvá e anulavam as alianças com estes povos voltavam as rivalidades. Isso foi o que aconteceu no período dos reis Yehoakim e Tzadikiahu que ao interromper os acordos e se revelar contra a submissão imposta pelo Império Babilônico resultou na destruição do Primeiro Templo e exílio da corte judaica e das famílias abastadas.

 

No período medieval a necessidade de sobrevivência fez com que líderes judeus traíssem alianças a fim de salvar sua comunidade frente a invasão de uma força militar maior e com mais possibilidades de vitória gerando o ódio pela parte derrotada e traída. Por outro lado as altas taxas de impostos para se permitir a estadia dos judeus nos territórios feudais e os recorrentes casos de abusos, acusações indevidas e perseguições geravam o ódio dos judeus contra os demais povos.

 

Em tempos modernos encontramos disputas semelhantes e a edição dos Protocolos dos Sábios de Sião atribuindo aos judeus ódio gratuito aos não judeus fez com que o mundo testemunhasse as atrocidades do Holocausto que, na Segunda Guerra Mundial, matou milhões de judeus e eliminou comunidades inteiras na Europa.

 

No Calendário Judaico estamos nas três semanas de aflições que correspondem aos dias entre 17 de Tamuz e 9 de Av. Devido as tragédias ocorridas nestes dias (Moshe quebrou as Prieiras Tábuas da Lei, o pecado dos espiões, cerco e ruptura das muralhas de Jerusalém, destruição dos dois Templos, etc) se acostumou diminuir a alegria e aumentar as rezas por teshuvá e perdão dos pecados de Am Israel. Na semana em que cai 9 de Av se acostumou a comportar-se como uma pessoa enlutada.

 

Dentre outros costumes desta semana que antecede 9 de av está o de não estabelecer ou participar de juízos com um não judeu. Am Israel decide evitar qualquer mal estar com os não judeus para evitar qualquer retaliação ou vingança que venha a provocar mais uma tragédia nestes dias já marcados na alma judaica por milhões de anos. Frente a tudo isso me pergunto qual seria a demonstração de paz e de boa relação com os não judeus que os sábios nos ensinam.

 

Aprendemos dos sábios na Mishná Massechet Guitin 5:8 que devemos realizar determinadas ações para melhorar nossas relações com o próximo e evitar atritos e discórdia como brindar ao Cohen e ao Levi as primeiras aliot mesmo havendo um Talmid Hacham na sinagoga, encher primeiramente os poços que já tenham um amá (40cm) de profundidade, não transferir os limites de um Eiruv etc. Dentre as ações de paz estão as de não negar dos frutos caídos no ato da colheita que são destinados aos pobres, nem negar-lhes do Peá (o canto do campo destinado aos pobres). Na Guemará acrescentam os sábios e dizem que se deve sustentar ao pobre não judeu juntamente com com os pobres judeus, deve-se visitar os enfermos não judeus juntamente com os enfermos judeus e enterrar os assassinados não judeus juntamente com os judeus (Guitin 61a).

 

Nos ensinam os sábios que não é justo e nem correto que ajamos com misericórdia com o nosso próprio povo e neguemos esta mesma misericórdia com o outro. E tais ações não devem ser feitas esperando em troca alguma retribuição, haja vista que ao enterrar um morto não se tem qualquer benefício disso.

 

Nos traz Rambam que “inclusive os enfermos dos idólatras decretaram os sábios que devemos visitar e enterrar seus mortos junto com os mortos de Israel, e sustentar seus pobres junto com os pobres de Israel por boa convivência, como está escrito: ‘Hashem é bom para todos e suas misericórdias sobre todas suas ações’, e como está escrito: ‘seus caminhos são caminhos são de deleites e todas suas veredas de paz’” (Leis dos Reis 10:12).

 

Certa vez me perguntaram porque os judeus e os não judeus não são enterrados juntos. Ora até agora o que vimos é que aparentemente sim deveriam ser enterrados. Mas não é bem assim. Os poskim questionaram a mishná por não estar claro se devem ser enterrados juntos um ao lado do outro ou se enterrados ao mesmo tempo. Entende-se que sim há a mitzvá de enterrar os mortos não judeus, há quem opine que inclusive se está obrigado a fazer levaia, principalmente se for um ben noach (Yore Deah 367:1).

 

Porém ao se enterrar os mortos há regras que muitos não conhecem. Traz o Shulchan Aruch (Yore Deah 362:5) que não se deve enterrar o perverso ao lado do justo. Isso não quer dizer que todos os não judeus são perversos, mas que há que se respeitar a kedushá de cada um e separar entre suas santidades. Ou seja, um tzadik não deve ser enterrado ao lado de um mediano, nem um mediano ser enterrado ao lado de um perverso e nem este ser enterrado ao lado de alguém pior que ele. Cada um deve ser enterrado segundo seu público. Assim, em um cemitério judaico sim pode se enterrar um não judeu porém, em uma área específica separada para eles. Essa separação é para que ninguém busque se defender diante do juízo celestial por estar ao lado de alguém mais justo que ele mesmo.

 

Portanto sim devemos agir com misericórdia com todos os necessitados sem nos apegar aos problemas do passado. Devemos construir uma sociedade mais justa com a colaboração mútua e uma parceria saudável que respeita as limitações do outro, inclusive as culturais e religiosas.

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