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Sim, não como nós, humanos, pensamos, mas acredito que eles tenham uma linha de raciocínio. Acho que o pensamento deles é imediatista, nada a longo prazo, afinal, cachorro não faz planos para o futuro, ele só vive o momento, e da maneira mais feliz possível.

Por que eu acredito que eles pensam? Vou dar alguns exemplos:

O Bud anda de carro comigo todos os dias. Ele me acompanha para a maioria dos locais que eu vá. Senta do meu lado e atrai olhares, pois ele se sente muito importante nesses passeios, estufa o peito, levanta as orelhas, fica lindão. Quando o carro para ele vem praticamente pro meu colo, coloca as duas patas da frente na minha perna e fica me protegendo, me dá umas lambidas, olha para a janela, volta a me lamber. Aí o semáforo abre, assim que tiro o pé do freio ele volta pra posição inicial. Ele sabe que o carro se movimenta por minha causa? Que eu preciso do espaço para dirigir? Não sei, mas ele faz direitinho.

O Bud é silencioso, só late se algum cachorro começa a latir, ou se ouve fogos de artifício ou sente alguma coisa estranha na rua. Aqui no apartamento ele costuma ficar bem quietinho. Lembra quando eu falei do Mike, cachorro dos meus vizinhos que era um fofo? Então, depois de algum tempo que ele havia partido eles adquiriram um Schnauzer, raça reconhecidamente barulhenta. O Willy fica louco quando percebe que o Bud está indo passear. Nessa hora fica uma sinfonia de latidos na área de serviço insuportável, pois o barulho na escada faz eco, e o Bud fica doidão. De uns tempos pra cá ele resolveu a situação. Eu chamo o elevador e ele fica dentro do apartamento me olhando e olhando a escada. Assim que ele percebe que o elevador chegou ele vai muito discretamente e entra. Achei tão incrível que filmei.

Numa praça que eu costumo frequentar a gente deixa a cachorrada toda solta, é a minha terapia, amo ficar observando os cães interagindo soltos. Tem uma fêmea Rotweiller que adora brincar com uma Bulldogue Frances. A coisa que essa Bulldoguinha mais gosta é tirar brinquedos e bolinhas das bocas dos outros cachorros, e na verdade ela é a única que consegue fazer isso, apesar de ser tão pequena. Essa Rottie quer atenção da Bulldogue o tempo todo, então, quando ela começa a brincar com outros cães, a Rottie pega qualquer coisa que ela consiga, vale de bolinha a garrafa pet, e vai esfregar na cara da Bulldogue, só para ela começar a correr atrás para pegar o brinquedo.

No mesmo local um frequentador estava brincando com o jornal e uma vira-lata linda. Ele segurava o jornal em uma mão e a viralatinha pulava bem alto tentando pegar o jornal, aí ele passava para a outra mão. Ficaram nessa brincadeira durante alguns minutos, enquanto uma American Staffordshire Terrier só observava, deitada, com os olhinhos acompanhando o jornal. Foi tudo muito rápido, de repente ela pulou na mão exata que o homem estava passando o jornal. Ou seja, ela viu a vira-lata pulando na mão direita, percebeu que ele passaria para a esquerda e, naquele segundo, arrancou o jornal da mão do homem, divertindo todo mundo.

Tenho uma amiga que vai nessa praça com suas duas Goldens. Esse praça fica dentro de um parque, mas tem esse espaço restrito que a gente fica. Não é pequeno, mas fora é bem maior. Bem, essas Goldens adoram ir na praça, mas chega uma hora que elas querem sair. Cada uma pega sua bolinha, vai até o cercado e, com as patinhas, empurram as bolinha para o lado de fora. Depois elas voltam correndo e latindo e chamam pra mostrar que as bolinhas saíram do cercado. Na primeira vez elas conseguiram, saíram para pegar as bolinhas e brincar lá fora. Quando aquilo começou a acontecer com frequência resolvemos observar. É a coisa mais linda elas empurrando as bolinhas para fora. Vai dizer que não foram super criativas para inventar esse truque.

Estava na casa de um grande amigo, num jantar, e já estava tarde, mas a conversa estava embalada, então ficamos na sala, alguns poucos amigos e duas cadelas, a Sophia, uma Labrador que é a simpatia em forma de cadela, e a Bolo, uma linda e gigante Labrador com Pit Bull que ele teve que adotar, pois os antigos donos a maltratavam. A Bolo veio dos EUA e se adaptou muito bem aqui, afinal aqui ela não apanhava e era super feliz, mas atravessou a ponte do arco íris e deve brincar por lá o dia inteiro. Há algum tempo a Sophia foi brincar no paraíso com ela. Enfim, estávamos lá, e a Sophia começou a andar entre nós, choramingando, parando segundos perto de cada um de nós. Percebi que ela estava ansiosa por algo e perguntei pro Armando, dono dela, o que estava acontecendo. A resposta foi ótima: “Sabe quando uma criança já está morrendo de sono, mas não quer dormir? Então, é isso.” Achei engraçadíssimo, e percebi que era isso mesmo, pois ele mandou a Sophia ir se deitar e ela foi direto pra caminha dela na sala.

O Arnold chegou na nossa rua quando a Tamy tinha 1 aninho. Aquele ursinho lindo logo se transformaria num lindo Rottweiler. Todos os dias a Tamy e eu íamos visitá-lo pois, além de amarmos cães, eu queria que ele se acostumasse com ela. Os dois ficavam sentadinhos na escada da casa e, conforme o tempo foi passando, o Arnold foi ficando muito maior do que ela. A escada é de degraus largos e baixos, e um dia a Tamy escorregou e caiu um degrau. Não se machucou, mas tomou um susto. O Arnold achou aquilo muito estranho. Nos dias que se seguiram e durante alguns meses ele não deixava mais ela chegar perto daquele degrau, chegando a sentar atrás dela para ela não cair.

Tenho um casal de amigos que tinha dois Labradores, a mãe e o filho. Falo sempre sobre eles. A mãe era a Gaia, delicada, fofa, deliciosa, tem muita personalidade. Precisa ser conquistada, não se aproxima logo de cara e, se não for com a sua cara, já era. O filho era o Basquiat, um palhaço, para quem tudo é festa. Ele foi moleque até o fim da vida dele, latia, chamava a atenção de todos, implorava por carinho, trazia a bola, tudo ao mesmo tempo agora. O dono é um artista, e quando o Basquiat era pequeno eles evitavam que ele entrasse no atelier, pois o Basquiat filhote era tão louco, mas tão louco, que o apelido dele naquela época é impublicável. Óbvio que ele entrava no atelier, e saía todo colorido depois de muita bagunça, mas a Gaia sabia que ele não devia entrar lá. Ela resolveu a situação sozinha, pegava o brinquedo que o Basquiat mais gostava, entrava atrás dele e o atraía para fora.

Esse mesmo casal foi viajar e, na volta para São Paulo, a Fernanda esqueceu de levar o notebook para o carro. Ela chamou os cães e o Basquiat veio correndo e entrou no carro, a Gaia nem apareceu. Como ela já era meio velhinha foram ver o que acontecia. Qual não foi a surpresa quando lá estava a Gaia, sentadinha ao lado do notebook, mostrando que a Fernanda estava esquecendo o seu objeto de trabalho. O que se passava na cabeça da Gaia? Que a dona precisava daquilo para ser feliz? Que aquilo era um objeto que estava ligado à dona dela, e sem ele ela não vive? Não sei, mas achei incrível.

Não sei o que ela pensou, nem os outros cães, nem o Bud, mas todos os cães que eu conheço, e que vocês conhecem, com certeza têm alguma história parecida. Não a história em si, mas o comportamento. E eu não me preocupo em saber o porquê desse comportamento existir, só curto cada história nova e admiro cada vez mais esses animais.

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