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“E cairão uns sobre os outros (Lev. 26:37) – um sobre o pecado de seu irmão – ensinando-nos que todos os israelitas são responsáveis uns pelos outros.” (Talmud Bavli, Shevuot 39a) Ao discutir o “efeito dominó” do pecado, o Talmud conclui que kol Israel arevim zé bazé, “todos os judeus são responsáveis uns pelos outros”.

Esta afirmação deveria estar escrita diante dos olhos de todo judeu, todos os dias; especialmente de seus líderes religiosos e dirigentes comunitários. É a base da noção de responsabilidade comunitária na lei judaica. Em princípio, referia-se à seguinte situação: se um judeu vê que outro judeu está a ponto de transgredir uma lei, ele tem a obrigação de intervir e ajudar. Mas a afirmação tem uma implicação muito mais profunda. Assim como a tarde (érev) conecta o dia à noite, quando dizemos que kol Israel arevim, afirmamos que todo judeu está irremediavelmente conectado, envolvido com os demais.

O que acontece com um atinge todos, para o bem e para o mal. Isso implica a obrigação de todo judeu e judia garantir que outros judeus possam ter garantidas, principalmente, suas necessidades básicas, como por exemplo, de saúde, alimentação, segurança, sustento – e até onde cair morto. Nesta semana acompanhei duas situações que exemplificaram esta visão de mundo. Na primeira, soube por meio de membros de uma comunidade judaica reformista no Peru que uma jovem israelense de 21 anos estava em um hospital peruano, gravemente enferma. Eles iniciaram um grande esforço para que ela recebesse transfusão de sangue.

A Maguen David Adom (“Estrela de David Vermelha”, o equivalente israelense da Cruz Vermelha) também se envolveu e afirmou que enviaria de Israel, por avião, o sangue necessário para o hospital onde a jovem está internada, assim que conseguisse superar a burocracia da transferência de sangue para o Peru. Em seguida faria todo o necessário para levar a jovem de volta para Israel, a fim de seguir com o tratamento adequado. Além disso, 17 israelenses que estão em Lima doaram sangue, permitindo que os médicos locais pudessem tratá-la e ganhassem tempo até a chegada do socorro israelense.

O pai da jovem afirmou a um canal israelense de TV que há algumas semanas sua filha foi picada enquanto passeava pelo Brasil, mas só se sentiu doente quando chegou ao Peru, onde a situação se deteriorou rapidamente. O cônsul de Israel no Peru, Limor Sherman, contou que dezenas de membros da comunidade judaica de Lima e muitos turistas judeus foram ao hospital para doar sangue nos últimos dias. Desejamos de coração e pedimos a Deus para que a jovem Zohar Katz possa se recuperar e retornar rapidamente para casa.

Certamente, isso acontecerá principalmente porque Kol Israel arevim zé bazé, porque muitos judeus assumiram o compromisso de serem responsáveis uns pelos outros. O segundo caso ocorreu aqui mesmo, no Brasil. Na semana passada recebi uma mensagem de whatsapp de uma amiga minha, judia, que vive em uma certa cidade do Nordeste onde há poucas famílias judias. Ela estava aflita e me comunicava que uma senhora judia estava em coma em um hospital, em condição irreversível.

Ela vivia sozinha. Minha amiga pediu minha ajuda para saber se, no momento do falecimento, o que se poderia fazer para que o corpo daquela senhora fosse enviado para outra cidade onde houvesse um cemitério judaico. Não me estenderei demais nesta história dolorosa. Somente que houve um grande esforço de judeus daquela cidade, e de outras do país, para que pudéssemos proporcionar um enterro judaico para aquela senhora.

Infelizmente isso não foi possível – mas há que se louvar o cuidado e a dignidade de suas colegas de trabalho, que além de lhe proporcionarem um enterro digno, acolheram as informações para que certos ritos judaicos fossem respeitados, como o uso da mortalha, o caixão simples e fechado e com uma Estrela de David – entre outros cuidados. Já na sexta-feira, no nosso serviço de Shabat na Congregação Israelita Mineira, aqui em Belo Horizonte, na hora do Kadish dos Enlutados, pedi permissão aos presentes para rezar um Kadish por uma pessoa que não tinha quem rezasse um Kadish por ela.

Na mesma hora todos se levantaram. Surpreso, expliquei que não era preciso, apenas os enlutados deveriam ficar em pé – este é o min’hag, o costume em nossa congregação. Mas os presentes realizaram um ato de “desobediência religiosa”, não me escutaram e permaneceram em pé. Isso me emocionou profundamente, de ficar com lágrimas nos olhos. Rezamos juntos o Kadish por aquela senhora que nem conhecíamos.

Em seguida comentei que eles haviam cumprido com muita dignidade o princípio de que kol Israel arevim zé bazé, de que todos os judeus estão envolvidos e são responsáveis uns pelos outros, onde quer que estejam. Que seja assim, sempre. E que a alma desta senhora esteja conectada à corrente da vida eterna.

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