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Em abril de 2010 recebi uma mensagem de Wendy Graff, então diretora do WTP, Projeto Mulheres da Torá. Tratava-se de um seleto grupo de mulheres do mundo inteiro que se dedicara a escrever um Sefer Torá. Entre elas uma brasileira, a querida Rachel Reichhardt, da Comunidade Shalom, de São Paulo. Em 2016, Rachel preparou minha sobrinha Maia para ler na Torá, na Shalom, por ocasião do seu Bat Mitzvá. Não preciso falar aqui das conquistas femininas em diversos campos da sociedade nos últimos 150 anos pelo menos, e que se aceleram nas últimas décadas. Alguns homens e mesmo algumas mulheres, meio perdidos, tentam ainda preservar velhos hábitos e costumes, mas outros, ainda que com alguma dificuldade, resolveram sentar para conversar e redimensionar o espaço de cada um e de cada uma nas mais variadas situações.

Um dos campos de maior dificuldade de inserção feminina ainda é o religioso judaico, particularmente no Brasil. Uma amiga dos tempos de Colégio Renascença me escreveu certa vez: “Uri, você acha certo mulher colocar tefilin?” Independente da minha resposta, ela continuará, ao que parece, achando certo ou errado – provavelmente errado – de acordo com o modo como foi educada, como se tefilin fosse algo tão masculino como as calças – que diga-se de passagem, há tempos faz parte do vestuário feminino. Talvez de nada adiante estimulá-la a estudar as fontes judaicas clássicas para perceber que não se trata de certo ou errado, mas de costumes e tradições. E vejam, falamos de costumes e tradições, no plural, não de um único costume e de uma única tradição. A única tradição judaica digna deste nome é debater diversas tradições. Este é o costume que alguns tentam sufocar.

Todo judeu e judia aprende um dia na vida, em casa, na escola, na sinagoga, nos clubes judaicos ou nos livros, que a mulher é fundamental para a continuidade do povo judeu, pois é ela quem dá à luz a uma criança judia – literalmente a “produção independente”, pois se depende do homem para dar à luz, independe do homem para trazer ao mundo um ser humano judeu. Mesmo que no movimento reformista americano se considere judeu também quem é filho(a) apenas de um homem judeu (e mãe não judia) [o movimento reformista israelense continua a considerar isto uma prerrogativa exclusivamente da mulher], isto só ocorre sob condição de que este filho(a) seja educado em escola judaica, frequente a comunidade e, atualmente, estimula-se a mãe não judia a participar junto e a converter-se ao judaísmo – o filho de uma mãe judia é considerado judeu, sem pré-condições. Mas tamanha importância ainda não se reverte no reconhecimento por alguns do direito pleno das mulheres vivenciarem sua religiosidade comunitária. Esta resistência não é somente de homens, mas também de muitas mulheres, inclusive não praticantes. Por que este receio? Como homem, sei e sinto o fascínio e perplexidade que as mulheres causam em nós.

Também a Torá nos causa fascínio e perplexidade. Suas belas histórias, suas personagens multifacetadas tanto nos preenchem de belos valores éticos quanto escancaram o lado sombrio que há em todos nós. No entanto, tanto a Torá como as mulheres trazem dentro de si o sod, o mistério que os homens nunca poderão desvendar, por mais que se esforcem. Os homens criaram muitas justificativas para desencorajar e impedir as mulheres de realizarem uma circuncisão, colocarem Talit e Tefilin, lerem na Torá, participarem de um minián, dirigirem uma cerimônia judaica de casamento. Vejamos então: Tzipora, mulher de Moisés, circuncidou o próprio filho (Êxodo 4:25). Em nenhum lugar do Talmud se afirma que as mulheres estão proibidas de colocar Talit ou Tefilin – não falo da Torá pois os homens não usavam talit, tefilin nem kipá na Torá; foram apetrechos criados posteriormente, comprovando mais uma vez como o judaísmo se desenvolve de modo progressivo.

Seja como for, segundo as fontes judaicas as mulheres estão isentas das obrigações religiosas com horários fixos, que poderiam entrar em conflito com seus compromissos domésticos – e hoje em dia, podemos falar de compromissos domésticos exclusivamente femininos? Em caso negativo, o outro lado da moeda também é verdadeiro: não podemos mais falar em horários fixos de cumprimento de mitsvot como uma prerrogativa exclusivamente masculina. O Talmud (Menachot 43a) nos conta:” “Os Rabinos ensinaram: todos são obrigados às leis de Tzitzit: cohanim, levitas, israelitas, convertidos, mulheres e escravos.” Rabi Shimon, porém, dizia que as mulheres estavam isentas, porque este é um mandamento limitado pelo tempo – e as mulheres estão isentas de todos os mandamentos limitados pelo tempo. E mesmo nisso, há muitos rabinos do Talmud que consideravam as mulheres obrigadas a usar tzitzit.

Ainda no Talmud (Eruvin 96a) conta-se que Michal, filha do rei Saul, usava tefilin, há mais de 3 mil anos – embora isso me pareça mais uma metáfora talmúdica que reforça o quanto não há proibições de mitzvot limitadas pelo tempo às mulheres desde os tempos bíblicos. Esta prática somente foi “desaconselhada” a partir do século 16, há cerca de 500 anos. Ou seja, talvez por pelo menos 2 mil anos o judaísmo foi igualitário e certas recomendações rituais às mulheres foram sendo criadas para garantir seu bem-estar diário, aumentando seus direitos e não diminuindo, de acordo com a época em que se vivia. Mas o que funciona em determinado momento pode não ser adequado para outro. Assim foi que certos favorecimentos à mulher acabaram por se tornar amarras e proibições, segundo alguns manuais religiosos medievais – que se tornaram referência para alguns até os dias atuais, ou justificativas para suas posições restritivas aos direitos da mulher judia. Com a Idade Média deixada para trás e o início da era moderna e contemporânea, desde o século 18 muitas “proibições” relativas às mulheres passaram a ser rediscutidas.

Um ícone é a jovem Yentl, a clássica personagem de Barbra Streisand no cinema que começa estudando nossas fontes clássicas com o pai dentro de casa, de cortinas fechadas, e chega ao extremo de se vestir de homem para poder estudar numa Yeshivá, tal era o anseio de sua alma por se conectar com a sabedoria de seu povo. Em vez de criarem-se novas práticas, o que vem ocorrendo progressivamente, de fato, é o resgate de antigas práticas. Hoje a cerimônia de Bat Mitzvá é uma realidade estabelecida em todos os movimentos judaicos, ainda que com variações importantes e raras exceções.

A leitura da Torá por mulheres — antes “proibida” — vem avançando e já é fato estabelecido há décadas em quase todas as instituições judaicas reformistas e conservadoras ao redor do mundo, às quais nos últimos 20 anos se somam comunidades ortodoxas, como as ortodoxas modernas Yedidia e Shirá Chadashá, em Jerusalém. Hoje em dia milhares de mulheres já leem diretamente do Sefer Torá todas as semanas, em centenas de sinagogas no mundo inteiro. Mulheres publicam livros com comentários da Torá, mulheres hoje até escrevem Sifrei Torá, figuras como Neshama Lejbowitz são extremamente respeitadas e surgem novas autoras, como Iochi Brandes, jovem autora israelense de obras de temática bíblica em Israel cujos livros somem das prateleiras das livrarias israelenses assim que são lançados – não, não são proibidos, mas vão para as mãos de leitores ávidos de conhecer uma perspectiva feminina sobre nossas tradições. Leitores de todo tipo, de ortodoxos a seculares. As mudanças na sociedade judaica, que presenciamos hoje, não acontecem do dia para a noite, mas devagar, progressivamente.

Parece ser este o modo feminino de estabelecer mudanças: que seja devagar para se estabelecer, mas que se estabeleça de verdade e com firmeza. Assim ocorre uma vez por mês em Jerusalém, há quase 30 anos, na lua nova, no início do mês judaico, quando dezenas de mulheres do grupo Mulheres do Kotel se reúnem junto ao Muro Ocidental para rezarem juntas e lerem na Torá. Há quem jogue cadeiras plásticas sobre elas, há quem xingue e amaldiçoe desde o lado esquerdo da mechitzá que separa homens de mulheres e faz do Kotel na prática uma sinagoga ortodoxa – mas enfim, elas continuam e provocam uma discussão mundial sobre o papel religioso da mulher no judaísmo e sobre o lugar de Jerusalém no coração e nas práticas de todos os judeus, e não apenas de uma parte deles nem apenas sob a jurisdição de um núcleo religioso.

Vejo que mesmo alguns homens que compreendem este velho-novo papel das mulheres na sociedade ainda querem, eles mesmos, estabelecer a dimensão do novo modelo de relações e a velocidade em que este deve ser instalado. Isto só demonstra a nossa ainda incapacidade de compreender os mistérios mais profundos das mulheres. Demonstra o quanto ainda não aprendemos a nos elevar para escutá-las, em vez de nos curvarmos sobre elas para repreendê-las e restringi-las. Todas as semanas, a Torá nos desafia, a cada estudo da porção semanal, com novos mistérios e novas formas de leitura. Também gostaríamos de lê-la e compreendê-la mais rapidamente; deveríamos nos erguer, subir à Torá para escutá-la com cuidado, pois a absorção dos valores da Torá acontece devagar, dia a dia, ano após ano, a vida inteira.

Pode ser que um dos temores de alguns homens esteja no encontro entre a mulher e a Torá. A Torá e a mulher são Torat Chaim, a Sabedoria da Vida, a base fundamental de onde nascem as flores e frutos da vida judaica. Ao se encontrarem, as duas podem se dar tão bem e se reconhecerem tanto uma na outra, que nos deixem de fora deste diálogo… será este o medo? Uma crítica à ordenação rabínica de mulheres – entre as quais há hoje rabinas ortodoxas que se unem às suas colegas reformistas, reconstrucionistas, conservadoras e do movimento Renewal – é que logo haverá mais mulheres que homens exercendo funções rabínicas, o que afastará os homens deste papel, como já ocorreria em comunidades nas quais as mulheres contam para o minián e leem da Torá, em muitas das quais as mulheres já são maioria.

Mas então, meu caro Moishale, o problema não está nas mulheres; elas têm compromisso, quando ela diz que irá à sinagoga ela vai – e você? Felizes daqueles que já partilharam do prazer de ver uma mulher dirigir um estudo de Torá, ler da Torá, dirigir um serviço religioso e cantar Col Nidrê na abertura de Yom Kipur, porque descobrem que suas vozes nos elevam, não nos enfeitiçam. A voz da mulher não expõe a nudez do corpo, mas a nudez da alma. E como rezamos toda manhã: “Meu Deus, a alma que Você me deu é pura”. A voz da mulher, sua intenção e postura, nos revela a pureza da alma. Felizes daqueles que escutam as vozes de Sara, Rivka, Lea, Rachel, das parteiras que permitiram o nascimento de Moisés, de Neshama Leibowitz, Iochi Brandes e Ruchama Weiss, de Rachel Reichhardt, entre tantas outras de todos os tempos. Felizes daqueles que acompanham as iniciativas das mulheres para rezar, seja no Kotel ou no campo, que recebem todas as semanas há mais de 10 anos os e-mails da Angelina com comentários da Torá, como preparação para os estudos todas as segundas-feiras na CIP.

Felizes dos que recebem a sabedoria das rabinas Luciana, Débora, Fernanda, Judith, Maya, Sandra, e tantas outras, no Brasil, em Israel e no mundo. A nós homens, cabe estarmos juntos, estimularmos, participarmos, estarmos juntos e à altura. A dedicação das mulheres no estudo e na prática dos valores judaicos deve nos provocar positivamente a uma dedicação maior também da nossa parte. Deste modo demonstraremos a nossa capacidade de amar tanto a Torá quanto as mulheres, e a nossa disposição em aprender a conviver com o mistério que se guarda dentro de uma e de outra.

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