Tzedaka Salva da Morte

O clímax da Parashat Ki Tissá é o pecado do Bezerro de Ouro. Como esse é o tema da semana em praticamente todas as sinagogas, estaremos abordando um outro tema, a tzedaká.

Há duas semanas atrás vimos sobre as doações que de boa vontade deveriam ser ofertadas para a construção do Mishkan segundo o que o coração de cada um desejasse dar. Vimos também que de todos os treze elementos apenas a prata tinha o valor fixo de meio shekel. A Parashá Ki Tissá volta à questão do meio shekel, mas desta vez como obrigação e não como uma doação voluntária. Isso porque há três doações deste tipo mencionadas na Torá: uma para a construção das bases do Mishkan, outra para a compra dos animais e materiais para os sacrifícios coletivos e a terceira para a construção e confecção dos utensílios do Mishkan.

A contribuição mencionada nesta parashá é a contribuição coletiva que era destinada para a aquisições dos materiais e animais para os sacrifícios públicos de todo o ano e que por sua vez, haja vista ser a única arrecadação anual, também servia para a contagem do povo. Interessante notar que a Torá atribui a esta contribuição o poder de expiar nossas almas como está escrito: “para fazer expiação por vossas almas” Shemot 30:16.

Refua ShelemaRashi traz duas opiniões sobre a que se refere a expiação citada aqui. Uma delas é como está escrito na Torá, que traz expiação ao “corpo” para que o povo não sofra com pragas. Explicam os sábios que toda a contagem do povo deve ser feita por meio do Meio Shekel e não por pessoa em si para evitar o yetzer hará e o ayin hará, como passou com David Hamelech que contou o povo por cabeça todos foram acometidos de uma praga (2 Shmuel 24). Seria uma ação preventiva. Todos estariam passivos de pragas e desastres e por meio da contribuição do meio shekel o povo se mantém seguro de todas elas. O que também serve para as guerras e progrons como diz a Guemará: é sabido diante do qual por sua palavra criou o universo que no futuro Haman pagaria em dinheiro por Israel e por isso se antecipa os shekalim [de Israel] aos shekalim dele”[1].

Explica Baal Haturim (Rabi Yaakov Ben Asher, Espanha século XII-XII) que este é um sinal para dar-se tzedaká nos dias de Yom Kipur, ou seja, nos dez dias que o antecede. A Guemará no fim da Massechet Shabat nos ensina que não há predestinações zodiacais para Israel. Ou seja, não estamos dependentes de ações externas que nos conduzam o futuro. Nós definimos nosso futuro por meio de nossas ações. Explica Rambam em sua carta aos sábios de Montpellier, França (Mersélia, na versão original da carta), que Israel padeceu em guerras nos tempos dos profetas por se submeter ao determinismo das constelações, que era muito difundido naqueles tempos. Se não agimos de forma correta e prudente claro que padeceremos. A forma de evitar as pragas, desastres e derrotas nas guerras é além de dedicar-se a Torá como um todo se dedicar a Tzedaká em particular, como traz a Guemará “tzedaká salva da morte”[2], tanto quem dá como quem recebe.

A segunda opinião seria a expiação das almas removendo delas seus pecados. Uma vez que por meio dessa contribuição se adquire o necessário para os sacrifícios públicos de todo o ano e que por meio deles se traz a remissão dos pecados involuntários de todo o povo, a expiação começa com sua contribuição. Porém a Torá estipula que a idade para a contribuição seja a partir dos 20 anos. Se é para a expiação dos pecados não deveria contribuir a partir dos 13 anos quando já se é responsável pelo cumprimento da Torá?

Explica Rashi que neste passuk (30:14) se aprende que a idade para se engajar no exercido é não deve ser menor que vinte anos. Se é assim então estaria a melhor enquadrada com a primeira explicação e não com a segunda. É certo que todo aquele que chega a idade de 13 anos para homens e 12 anos para mulheres passa a ser automaticamente responsável por seus atos e tem a obrigação com a Torá. De tal forma que já com esta idade é passivo de julgamentos perante um Beit Din para todos os temas inclusive os financeiros, danos, propriedades e matrimoniais. Além do mais traz Rambam[3] nas leis de “Relações Proibidas” que até mesmo uma criança de nove anos que tenha se relacionado com uma meia escrava comprometida com um escravo judeu deve trazer um sacrifício pelo pecado.

Porém, encontramos na Guemará[4] que o Beit Din Celestial não castiga alguém até que ele cumpra seus 20 anos. Explicam chazal que o rapaz só é considerado adulto depois dos vinte pois até então ele não é contado com o povo[5]. Discutem os sábios se está impune de toda a Torá ou unicamente das mitzvot não explicitas na Torá Escrita. O mais importante é que entendamos o que nos quer dizer essa idade mínima, pois vemos o caso do profeta Shmuel que recebeu do Beit Din Celestial a punição de morte por ensinar halachá frente a seu mestre, Eli Hacohen, que contradiz o dito na Guemará. Nos ensinam os meforashim que o Beit Din Celestial julga segundo a capacidade cognitiva de cada um; em outras palavras, segundo a inteligência de cada um. A criança que sábia e entende a Torá e conhece as leis será tomada em conta bem como um jovem de vinte anos. Entende-se que a idade de 20 anos uma pessoa normal alcança maturidade suficiente para se responsabilizar pelos seus atos perante os céus.

A partir do momento em que alcançamos maturidade somos conscientes de nossas responsabilidades e de quais as consequências de nossos atos. Portanto o meio shekel, bem como a tzedaká vêm para expiar nossas más ações que não tivemos intenções de executá-las. Até mesmo pode ser que nem nos demos conta, pois é o que acontece com mais frequência ainda mais em nossos dias que as obrigações e a vida agitada nos roubam nossa atenção. Nisso nosso espiritual fica fragilizado. Pois segundo a Halachá a Tzedaká tem sua função de promover a justiça social e ajudar o pobre, e este é o objetivo maior. Mas também como mitzvá tem sua recompensa que é corrigir nossa falta de atenção na guarda da Torá expiando nossas almas.

Shabat SHalom a todos.

 

[1] Meguila 13b

[2] Shabat 156

[3] Mishne Torah, Relações Proibidas 3:17

[4] Shabat 89b

[5] Yalkut Shimoni, Mishlei 247

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