santorini

Morei em vários países por muitos anos. Quando faço a lista, fico impressionada com a sorte que tive com as cidades que escolhi. Florença, Floresta Negra, Paris, Londres, Santorini, Annecy, Zurique. Até quando fui para o México, acabei em uma cidade desconhecida na época e hoje considerada uma das 10 melhores do MUNDO para morar: San Miguel de Allende.

A questão que sempre me fazem: como você aguenta morar no Brasil depois de passar por tanto lugar maravilhoso?

Confesso que não foi fácil encontrar paz dentro do meu peito. Eu tive de empurrá-la goela abaixo. Foram muitos anos de intolerância, raiva, frustração. Até o momento em que percebi que eu estava vivendo em um mundo irreal, pois irreal é tudo o que não é presente.

Lembranças podem ser grandes algozes da nossa Felicidade. Por serem seletivas, muitas vezes comparamos o melhor do passado com o pior do presente. A verdade é que se éramos mais jovens, provavelmente tínhamos mais dúvidas, inseguranças, menos compreensão de si e do mundo. Éramos intolerantes, mais raivosos, tínhamos mais medos. Nossos corpos eram mais bonitos mas nos aceitávamos menos. Nos importávamos demais com o que falavam da gente, tudo o que acontecia em volta era de extrema importância, e todo contratempo uma desgraça.

Lembrando dos anos vividos nas cidades cobiçadas em que morei, não me lembro de ter sido mais feliz. Tudo isso me recorda o filme “A Praia” com o Leonardo de Caprio. Um grupo de mochileiros que encontram um lugar paradisíaco (é o que todo mochileiro busca), e vivem o inferno. É como se a perfeição externa silenciasse as culpas que colocamos no mundo por aquilo que é de nossa autoria, e precisamos encarar nossa imperfeição interna. Descobrimos que o inferno está dentro de nós.

Minha “praia” foi Santorini. Foram 5 meses que passaram como se fosse uma semana. Não conseguia pensar, me conectar, acho que não fiz uma oração nesses meses em que ali estive. Sei que não escrevi uma linha em meu diário. Meu dia era cheio de pessoas enfrentando seus demônios. Tentava ajudar um ou outro, mas era tudo uma overdose de reações. Festas e brigas homéricas, desentendimentos entre todos, amizades drive-thru, que duravam um dia ou três no máximo, pois o barco os levava para uma nova ilha e os habitantes locais ficavam se entreolhando pois já não éramos novidade um para o outro. Diziam que a ilha era a antiga Atlântida, e essa energia era pesada. Fazia da ilha um megafone das nossas vibrações, tudo era intenso demais. Não por pouco é o local fixo para a convenção mundial anual das bruxas.

Depois teve Paris, onde perdi meus sonhos, e Londres, onde enfrentei meus medos. Vivi cada minuto da minha vida até então comparando o meu presente com o que eu gostaria que fosse. Um momento congelado no passado, um sonho distante no futuro.

A verdade, é que não importa quantas novas oportunidades você tenha, há uma coisa em comum a todas elas: você mesma.

Faço um trabalho voluntário com refugiados haitianos, africanos e alguns sírios. Digo a eles que aquela mentalidade que os ajudou a serem críticos com o presente deles, e lhes deu o impulso para chegarem aqui, será exatamente a mente que os expulsará daqui algum dia. De alguma forma, o que aconteceu no passado vai voltar a acontecer no futuro se eles não aprenderem as lições e mudarem. Se eles quiserem realmente ter alguma chance no Brasil, eles precisam mudar a mentalidade que tudo critica e rechaça para a mentalidade que vê tudo como uma oportunidade.

Voltando para o Brasil, essa terra sem proteção, onde as dificuldades e violência estão à flor da pele, essa foi a grande lição que não apenas me ajudou a sobreviver à uma realidade tão mais dura, como até a ser mais feliz. Concluí que eu precisava aceitar o meu presente, enterrar o passado e sonhar com pragmatismo, ou então iria assassinar toda e qualquer chance de ser feliz um dia, seja aqui ou em qualquer Conchichina limpa, honesta e segura, onde tudo funciona. Nada de “bem que podia”, “deveria”. A palavra de ordem é “o que posso fazer com isso?”. Se sonho com uma realidade diferente, o que estou fazendo para alcançar esse sonho hoje?

Receber o presente, desembrulhar e tirar dele a sua lição é o único que temos a fazer. Não adianta viver no passado ou em sonhos futuros. A vida é feita de numerosos mas finitos momentos únicos, e eles são a chance que temos para fazer ela acontecer. Esses momentos são os “aqui e agora”. Eles passam e deixam um recado: o que você fez de mim?

Enquanto vivermos esperando que as condições sejam “como deveriam ser”, enquanto tudo o que acontece achamos que “bem que podia ser” diferente, estaremos plantando um erva daninha no vaso da Felicitis Personalis, planta frágil e rara, que só se alimenta de proatividade, disciplina e de coragem daquele que está buscando sempre estar em dia com a sua própria Vida.

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